Imunidade 4.0: a importância de defender e otimizar o sistema imunológico

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A conscientização da sociedade sobre sua responsabilidade com a própria saúde e no reaparecimento de doenças, aliada à ameaça de novas pandemias podem levar pessoas e empresas a colocar a saúde no topo da agenda. Essa é uma tendência que estamos observando, e essa conscientização inaugura novos hábitos e comportamentos que podem minimizar riscos à saúde individual e coletiva. 

A preocupação em relação à imunidade se manifesta não somente motivada pela eclosão da pandemia do novo coronavírus. Em 2019, por exemplo, a Organização Mundial de Saúde (OMS) emitiu um alerta sobre uma possível terceira onda de surto de febre amarela no Brasil. “Há indicações de que a transmissão do vírus continua a se espalhar em direção ao sul e em áreas com baixa imunidade populacional”, avisou a entidade.

Uma boa imunidade é a principal defesa do corpo contra vírus, fungos, bactérias e parasitas. “Existem mais de 300 distúrbios genéticos que podem causar alguma disfunção do sistema imunológico, variando desde comprometimentos leves até doenças bastante severas. Qualquer vírus, bactéria, fungo ou parasita, pode sob determinadas circunstâncias, se aproveitar de falhas no sistema”, alerta o diretor técnico e clínico-geral do Hospital Geral Dr. César Cals, do Governo do Ceará, Dr. Pedro Guimarães.

Uma má alimentação, excesso de trabalho, insônia, sedentarismo e consumo excessivo de álcool, também podem comprometer o sistema imunológico de forma significativa. “A queda na imunidade pode acontecer ainda por motivos genéticos e uso de corticoides, quimioterápicos e, em menor intensidade, os anti-inflamatórios”, detalha o nutrólogo e intensivista do Hospital Moriah, Dr. Marcelo Cássio de Souza. Além desses fatores, Dr. Souza complementa que o pico ou uso de dose elevada de progesterona [pré-Tensão Pré-Menstrual (TPM)], algumas doenças virais, todas as doenças autoimunes, doenças inflamatórias, neoplasias e diabetes não compensado, podem fragilizar a imunidade. 

Os imunossuprimidos (pessoas com comprometimento do sistema imunológico), como os pacientes oncológicos, portadores de HIV e transplantados são um grupo que tem um risco potencializado para desenvolvimento, por exemplo, de pneumonia e doenças pneumocócicas invasivas.

Então, como defender e otimizar o sistema imunológico?

Esse sistema é um mecanismo natural que atua no nosso corpo como um conjunto de elementos (órgãos, tecidos e células) na resolução de processos infecciosos, salientando que, a maioria das doenças se inicia por um processo de infecção. O sistema imunológico, portanto, trabalha como um exército, que impede o avanço e a proliferação de agentes infecciosos. 

Teoricamente, esse sistema deveria funcionar adequadamente e nos manter sempre saudáveis. Mas para que isso aconteça, o corpo também precisa de cuidados e hábitos saudáveis. A idade influencia: a Harvard Medical School publicou recentemente um artigo que mostra que – com o passar dos anos – esse sistema passa a demorar cada vez mais a responder, o que facilita o surgimento de um maior número de doenças em idades mais avançadas. Cientistas consideram que essa vulnerabilidade pode estar relacionada à diminuição da percentagem e do repertório das células T causada pela involução do timo. Esse conjunto de alterações da resposta imunológica associadas ao envelhecimento é chamado de imunosenescência.

Independentemente da idade, existem alguns sinais que indicam que o sistema imunológico possa estar deficiente. Infecções respiratórias frequentes, cansaço constante, desconfortos gastrointestinais e ferimentos que demoram para cicatrizar podem ser sinais de alerta. 

Há várias maneiras de se cuidar do sistema imunológico. Umas das melhores formas é manter uma alimentação saudável, equilibrada e balanceada com diversos nutrientes, evitando o consumo de alimentos ultraprocessados. Mesmo em face dessas informações, estudos recentes indicam que nas últimas décadas houve uma mudança significativa na composição nutricional dos alimentos e nos hábitos alimentares. Hoje, uma refeição balanceada e de quantidade similar à refeição de duas ou três gerações passadas, provavelmente não seja suficiente para manter o corpo saudável e livre de doenças. Um importante estudo de 2004 analisou a composição nutricional de vários alimentos entre 1950 e 1999, e concluiu que ocorreu uma diminuição do valor nutricional dos alimentos com o passar dos anos.

Segundo estudo da revista The Lancet, em 2017, uma em cada cinco mortes no mundo esteve associada à má alimentação, seja por consumo excessivo de sal, açúcar e carne, ou por carência de cereais integrais e frutas. A pesquisa destacou que quase 11 milhões de mortes foram provocadas por doenças cardiovasculares, câncer ou diabetes tipo 2, associadas à obesidade, ao modo de vida sedentário e à alimentação desequilibrada.

As pessoas mais vulneráveis da sociedade – baixa renda, mulheres, povos indígenas, população negra e famílias rurais na América Latina e no Caribe – são as que mais sofrem os piores efeitos das mudanças recentes no ciclo da alimentação, precisando muitas vezes optar por alimentos baratos ultraprocessados, com alto teor de gordura, açúcar e sal, como revelou o relatório de 2018 da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Nesse sentido, optar por alimentos in natura, com alto valor nutritivo, é uma das recomendações para potencializar o sistema imunológico. No entanto, especialistas afirmam que, mesmo que sua alimentação seja equilibrada e você opte por alimentos orgânicos há uma dificuldade de se obter, de forma integral, as vitaminas e minerais necessários. Por isso uma correta suplementação de vitaminas e sais minerais possam ser bastante úteis para a manutenção da saúde, já que as vitaminas atuam como cofatores de enzimas envolvidas na resposta imune e maturidade de células de defesa.

O consumo de prebióticos e probióticos, que garantem uma flora intestinal equilibrada, também contribuem para a manutenção da  imunidade, uma vez que cerca de 70% das células imunológicas estão no trato intestinal. Probióticos encontrados nas fibras vegetais e nos alimentos fermentados fornecem ajuda extra na criação de uma barreira protetora. 

Em relação à Vitamina D, embora não exista consenso em relação à dosagem, sabe-se que o consumo de alimentos ou a suplementação dessa vitamina está diretamente relacionada ao bom desempenho do sistema imunológico. Um artigo publicado recentemente no The New York Times mostra um estudo feito com 107 pacientes idosos, onde o primeiro grupo recebeu uma dosagem alta de Vitamina D, enquanto o outro grupo recebeu a dose padrão. Depois de um ano, os pesquisadores verificaram que as pessoas do grupo de alto dosagem tiveram 40% menos doenças respiratórias em comparação aos demais participantes. Outro estudo em forma de meta-análise, publicado no BMJ, analisou 25 ensaios clínicos randomizados com mais de 11.000 pacientes e observou que a suplementação com Vitamina D teve um efeito protetor contra doenças respiratórias.

A bebida alcoólica em excesso também pode prejudicar a resposta imunológica. Pesquisas confirmam a existência da relação entre o consumo excessivo de álcool e a função imune do organismo, demonstrando – por exemplo – que pessoas que bebem em excesso são mais suscetíveis a doenças respiratórias e também demoram mais para se recuperar. Estudos também indicam que determinadas células de defesa (como macrófagos) não são tão eficazes em pessoas que consumiram álcool em excesso, além do que, esse comportamento pode contribuir para redução de linfócitos. 

O sono é outro fator determinante para o bom funcionamento do sistema imunológico. Sabe-se que uma quantidade de sono insuficiente reduz a capacidade de combate às infecções. Em um estudo citado pelo The New York Times,164 pessoas foram expostas a vírus respiratórios mas nem todas ficaram doentes. Aquelas que dormiam pouco (menos de seis horas por noite) tiveram 4,2 vezes mais chance de ficar doentes em relação às que dormiam mais de sete horas. O risco de adoecer era ainda maior para as pessoas que dormiam menos de cinco horas por noite. 

Dentre as recomendações para otimizar nosso sistema imunológico, a mais desafiadora talvez seja a que trata da adoção de hábitos para controlar o estresse. Parece algo quase impossível em meio à pandemia, crises econômicas e políticas, e cenários de incertezas. Mas, reduzir o estresse pode ser um forte aliado para aumentar sua imunidade. O estresse contínuo pode aumentar a produção de cortisol no corpo, o que colabora para diminuir a resistência no combate às infecções. Os níveis crônicos de estresse reduzem as células de defesa que fazem nosso corpo lutar contra as doenças. 

Dormir bem, meditar, se alimentar de forma saudável e praticar exercícios físicos regularmente são recomendações antigas, mas na verdade continuam atuais para fortalecer a imunidade. O grande diferencial é que essas recomendações hoje podem ser monitoradas e apoiadas por modernas tecnologias da era digital. É isso que veremos a seguir!

Novas Tecnologias e Novas Ferramentas

O perfeito conhecimento do sistema imunológico é fundamental para o entendimento de questões relacionadas ao envelhecimento e longevidade. 

Nos últimos anos, estudos relacionados à imunidade e aos fatores que alteram positivamente o sistema imunológico ficaram em evidência principalmente pelo fato dos cientistas James Allison e Tasuku Honjo terem recebido o Prêmio Nobel de fisiologia na medicina. A dupla demonstrou como proteínas em células do sistema imunológico podem ser usadas para manipular o sistema imunológico, de modo que esse consiga atacar as células cancerosas. 

Desde então, a abordagem tem levado ao desenvolvimento de terapias reconhecidas por prolongar a vida de pessoas com câncer, e também por fazer desaparecer os sinais da doença mesmo em pessoas com estágio avançado do câncer. Vários pesquisadores começaram passaram a adotar essa abordagem, e a imunoterapia é agora uma das áreas mais promissoras na pesquisa do câncer.

No que se refere ao papel da indústria farmacêutica, recentes avanços ligados a impressão 3D de medicamentos (fig.1) seguramente contribuirão, direta ou indiretamente, com cuidados que visam a otimização do sistema imunológico. Especificamente em relação ao mercado magistral, a utilização de impressoras 3D nas Farmácias Magistrais teria o potencial de transformá-las em farmácias digitais, cumprindo o ciclo de cuidados de Telemedicina e definitivamente evoluindo o tratamento fármaco terapêutico de seus pacientes. 

A coparticipação da indústria farmacêutica e das farmácias magistrais parece ser a melhor forma de transformar o aporte dessa tecnologia em realidade. A indústria farmacêutica pode produzir em larga escala insumos medicamentosos em forma de filamentos com qualidade e segurança garantidas, ao passo que as Farmácias Magistrais Digitais podem transformar estes filamentos em medicamentos personalizados, de acordo com prescrições específicas. Apesar do conservadorismo do setor, a impressão de medicamentos em 3D tem potencial para se transformar no maior avanço tecnológico já visto no segmento farmacêutico. 

A figura abaixo ilustra como a disponibilização de medicamentos personalizados e eventualmente produzidos pela impressora 3D faz parte da última etapa da cadeia de cuidados digitais, na Telemedicina.

telemedicina
Expandir o acesso à saúde, possibilitando que pacientes em regiões remotas possam ser atendidos virtualmente por médicos especialistas em qualquer lugar do mundo: a Telemedicina é a porta de entrada para a medicina do futuro. Além da utilização de recursos tecnológicos que permitem consultas remotas com diagnósticos precisos, prescrições digitais e medicamentos personalizados produzidos a partir de impressoras 3D consolidariam a Farmácia Magistral Digital como parte final dessa cadeia de cuidados digitais.

Um exemplo de empresa inovadora, que utiliza um modelo de negócio com base na cadeia de cuidados digitais ilustrada na figura acima, é a startup de saúde Thryve. Embora não produza medicamentos, está focada no mapeamento do microbioma e na posterior customização e distribuição de produtos probióticos que atendam necessidades específicas de cada cliente/paciente. Esse mapeamento é importante porque a maioria das células imunes são encontradas no tecido linfático associada ao intestino (gut-associated lymphoid tissue (GALT)), o que reflete o forte papel do intestino na manutenção da imunidade. A composição do microbioma intestinal muda com decorrer da vida, e sabe-se que dietas focadas na otimização da microbiota intestinal necessariamente inclui a utilização de probióticos e prebióticos.

O uso da inteligência artificial também tem o potencial de fazer parte do arsenal da Farmácia Magistral Digital. Essa tecnologia pode estar presente, por exemplo, na definição das melhores dietas alimentares para cada indivíduo, como mostra este artigo do cardiologista e professor de medicina molecular, Dr. Eric Topol. Ele mesmo participou de uma experiência de duas semanas, onde usou um aplicativo para rastrear sua alimentação, prática de exercícios e sono. Todos os seus dados, bem como os dados de mais mil pessoas foram analisados por inteligência artificial para criar um algoritmo de dieta personalizado. Com informações precisas, como estas da dieta personalizada, fica mais fácil tomar as decisões acertadas para o gerenciamento da nossa própria saúde e melhoria da nossa imunidade. 

Novas Abordagens 

O sistema imune é um sistema complexo integrado que necessita de vários micronutrientes específicos, incluindo vitaminas e minerais A, D, C, E, B6 e B12, folato, zinco, ferro, cobre e selênio; estes micronutrientes têm um papel vital de sinergia em cada estágio da resposta imune. No entanto estudos recentes indicam que as reais necessidades diárias de consumo podem ser maiores do que as quantidades atualmente recomendadas. Embora dados contraditórios existam, a evidência disponível indica que a suplementação com múltiplos micronutrientes, que apoiam a função imune, pode modular o sistema imunológico e reduzir o risco de infecção

 Estudos relacionados à  imunosenescência, entendida como o declínio da função do sistema imunológico relacionado ao avanço da idade –  favorecendo uma maior incidência de infecção, câncer, e mortalidade relacionada a doenças autoimunes na população idosa – também abriram um novo paradigma focado na otimização do sistema imunológico. Uma outra abordagem está nos estudos da inflamação relacionada ao envelhecimento o “inflamaging”, no melhor entendimento de suas causas e consequências. 

Uma maior compreensão da relação entre a dupla fatal inflamaging (inflamação relacionada ao envelhecimento) e imunosenescência (declínio da imunidade relacionada ao envelhecimento) é um destes recentes avanços em pesquisa na área. Isso porque a inflamação relacionada ao envelhecimento pode resultar de atividades desreguladas das células imunes, que tendem a ser pró-inflamatórias como parte de suas funções essenciais.

Outra abordagem diz respeito a nutrição de precisão, que foca na microbiota intestinal e sua interação com as células do intestino, auxiliando na regulação de vários mecanismos biológicos envolvidos na imunidade e na homeostase energética, enquanto também protege o corpo humano contra patógenos através da resistência a colonização.

Tendência

Os avanços na medicina de precisão impulsionados – por exemplo – pela medicina preventiva, por diagnósticos precisos, e pela possibilidade de prevenção de patologias em estágio inicial também abrem a possibilidade de cuidados personalizados de saúde, focadas na manutenção da saúde e idade biológica através da otimização da função do sistema imunológico. Isso permite o surgimento de uma nova fronteira – partindo de uma medicina de precisão em direção a um conceito mais amplo de saúde de precisão.

medicina de precisão

Crédito: Longevity Industry Landscape Overview 2019

Conclusão

Mudanças demográficas como o aumento global da expectativa de vida e o consequente aumento da população geriátrica, impactam no aumento da incidência de doenças crônicas – como problemas cardíacos e câncer. Esses novos perfis de pacientes têm uma elevada percepção de valor a respeito dos medicamentos magistrais. 

Por sua vez, as Farmácias Magistrais têm o potencial de ocupar um “gap” de mercado ao oferecer dosagens e formas de prescrição/administração personalizadas que não são comercialmente disponíveis. Assim, o mercado magistral é o elo de ligação entre a mudança de paradigma dos profissionais de saúde que praticam uma medicina personalizada para os profissionais que possuem uma visão mais ampla de saúde personalizada. 

Se você quiser saber como participar desse movimento, continue nos acompanhando.

Dr. Leonardo Aguiar, Lilia Porto, Raphael Aguiar & time Saúde na Era Pos-Digital

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